terça-feira, 23 de junho de 2009

Uma Ninfeta Gaúcha

Desde que comecei a escrever usando como objeto de minha inspiração a "rua da praia" que tenho desejo de falar de mulheres. Falar das mulheres nós ouvimos desde criança. Aliás, o assunto é até muito lúcido, embora Em alguns momentos, tenham lá suas complicações. Nascemos de uma mulher, acostumamos logo cedo a ouvir histórias ou estórias de mulheres por algum ou alguns de nossos entes queridos, normalmente alguém do sexo feminino. Há tantas pessoas pra nos contar as estórias. Normalmente há mulheres nesses relatos. Principalmente nesse tipo de narrativas: ninfetas. Quando criança, uma das primeiras histórias que me contaram, foi a da "branca de neve".

Não tenho dados estatísticos, mas parece que essa é a mais contada. Não gostei da história. Nem um pouco. Não consigo entender o porquê, mas dessa eu não gostei. Sei lá, nasci em Natal, "cidade do sol". Na ingenuidade do meu tempo de guri era complicado entender uma "branca" e ainda por cima, "de neve", algo difícil de entender por um guri nordestino. As "brancas" da capital potiguar são rosadas. Achava a personagem branca demais, a madrasta, má demais, e muito estranho o comportamento daqueles sete anõezinhos.

A tal da "bela que adormece" achei babaca demais: se machucar no fuso pra mim era dose cavalar para a portadora dos dois neurônios. Prostrar-se num leito e viver anos e anos a fio a espera do príncipe encantado sem aprender nada da vida é desinteligente. Algumas mulheres agora em nossos dias seguem o exemplo e se inebriam, adormecem, e só acordam quando precisam do exame de dna. As histórias têm finais felizes (quase sempre). Porque acabam no meio da festa. O "e viveram felizes para sempre" fica isento de testemunhas.

A primeira vez que me contaram, tive muita dó do lobo que teve um triste fim após usufruir tudo que a ninfeta e a vovozinha tinham de vermelho. O príncipe que virou sapo seria mais interessante como rã com pernas fritinhas, tostadas, com arroz à grega, um carbenet branco e uma boa companhia. À noite. Tudo à meia luz.

A moça do borralho me deu vontade de mandar todas as mulheres com seus instintos de inveja para o caldeirão da bruxa. Esta sim, feia e desengonçada com é retratada nos livros, que na sua maioria foram escritos por homens, porém inteligente. Com um pouquinho mais de experiência vim a imaginar que o gênio daquela mulherada não devia ser nada fácil.

Quer saber quem me despertou interesse? A tal da Alice. Esse nome foi dado a personagem pelo seu criador, o reverendo Charles. Charles Lutwidge Doudson era pastor evangélico e como escritor adotou o epíteto de Lewis Carrol. Podia ser Maria, que eu não iria me incomodar. Mas foi esse, deixa assim. Leram para mim e eu, segurei o livro e fiz dele o meu companheiro de travesseiro. Quis que a Alice me fizesse companhia desde cedo. Mais cedo ou mais tarde eu teria condições de ler sozinho e desvendar minha musa.

Alice me pareceu, após a centésima leitura, uma jovem sensata. Pelos idos dos meus catorze anos a personagem do reverendo passou a ser minha paixão platônica. Paixão mesmo. Paixão dessas de colocar no coração e armar todo o visual em volta para que o mundo saiba o quanto você é bobo. Um pouco depois a substituí por Romina. Romina Power. A conheci através de reportagens nas revistas quando começava a demonstrar o frescor de sua juventude nas telas do cinema nos filmes que vinham lá do estrangeiro. Menos mal. Essa apesar de tudo que se pudesse falar de mim era gente. Tinha vida.

Caminhando pela "rua da praia", na capital dos gaúchos, vivo a observar as ninfetas que transitam por ali. Vejo-as sozinhas. Acompanhadas de mães, pais, avós, com amigas, algumas vezes com namorados, paqueras ou quem quer que seja do sexo oposto e não muito raro com algumas do mesmo sexo. Gosto de admirar. Não "com a mesma mente" daqueles que navegam pelos sítios da internet e que usam a palavra como chamariz. Apenas com o intuito de admirar a bela escultura do corpo humano.

Conheci uma. Digo conheci porque tive a oportunidade de conversar. Admirei-a. Não como Balthus. O Balthasar Klossowiski de Rola, o pintor francês. O artista as desnudava nas telas. Considerava-as "muito mais anjos que demônios". No nosso terceiro milênio seria pedófilo. Minha admiração é uma viagem de poeta. Cronista. Aquela jovem me fazia lembrar das divindades mitológicas dos rios, principalmente na mistura das lendas e da transformação da mulher em peixe e vice-versa. Da virgem hamadríade com seu belo corpo de mulher e gazela que ilude caçadores enquanto se defende dos "seus" demônios.

Ela estava ali. Do meu lado. Rosto lindo, corpo escultural. Blusinha colada ao corpo, fechada com botões que pelo belo volume do busto e a jovialidade, marcavam a blusa e deixava à mostra a marca do sutiã. A saia era justa. Justíssima. A marca da calcinha, asa delta, fio dental ou tanga...me desculpem pois faço muita confusão com relação a essas peças de uso prioritário das ninfetas, estava lá para quem quisesse ver. Eu procurando ser sisudo tentava domar os olhos e os desejos. Admirava tudo a furtapasso.

Quinze anos é a idade da minha amiguinha. Lúcia. Lúcia é o seu nome. Caminhamos pela "rua da praia" e de repente paramos defronte uma daquelas lancherias de "pratos" rápidos que a juventude tanto gosta. Se é que podemos chamar aquilo de pratos. Um simples olhar que demonstrava desejos foi o suficiente. Lá estávamos nós a consumir aquela carne estranha e bebendo aquele líquido laboratorialmente inidentificável.

Outras ninfas ou ninfetas rondam por ali. Muitas apesar de terem completado a mesma idade não tem a força da minha amiga a compor a sua personalidade. Os revezes diários e noturnos assim como as intempéries do tempo e da vida as impede de cultivar um belo corpo e manter uma saúde semelhante a da Lúcia. Vitimadas pelo cerceamento da realização da maioria dos desejos, sufoca-os no bodum de tolueno. Olhos famintos, carentes de tudo. Nos admiravam. A vitrine era ampla e lá estávamos nós expostos aos sonhos dos sonhos.

Lúcia era minha musa. Naquele momento não sei se desejava ser pescador, caçador ou um outro sonhador qualquer. De repente, a "minha" ninfeta acena e por fora da vidraça está aquela senhora que foi embora levando o meu sonho. Tive que pagar a conta.


Geraldo Potiguar do Nascimento/2004

6 comentários:

  1. Vc escreve muito bem.Adoro contos e esse é ótimo deveria publicar.Parabéns.

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  2. Meu querido, que delicia essa sua abordagem sobre os contos e as mulheres neles envolvidos.Acaba de me dar uma idéia para fazer o mesmo com os personagens masculinos rsss Vamos ver o que acontece com os sete anões, com os principes , que fatalmente estarão gordos e carecas , com as familias deles e por ai vamos.So sei dizer que algumas dessas personagens tiveram uma vida nad fácil rss
    Abraços
    Vera

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  3. Olá amigo Geraldo,
    tenho que concordar com amiga Vera...A esta altura comcerteza estão todos barbados que nem Matuzalem e barrigudos de tanto comer!!!Mas como sempre as charges e histórias não contemplam os homens e sim na maioria das vezes só existem gatas borralheiras e não gatos...belas adormecidas e não belos adormecidos...que por mim ficariam dormindo eternamentersrsr.
    Beijos

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  4. Oi Ritinha,
    que bom que o texto inspira respostas. É dessa maneira mesmo que a vida tem que funcionar. Esse foi um dos primeiros texto onde olhei para dentro de mim e fui buscar as reminescências do meu tempinho gostoso de criança. Continuo afirmando que a grande maioria dos textos que se passa para as crianças são textos muito babacas. Essa historinha que duas mulheres brigam por causa de "beleza" e no final das contas tem de surgir um principe (homem... macho... corajoso...) para salvar e... casar com a mais bonita é algo que não se deve engolir. Acredito na inteligência e não há escolha de sexo para que se consigar ter um nível intelectual mais ato. Esses continhos são uma maldição para as mulheres. Tem que ir à luta e não ficar sentada esperando o seu principe "encantado".

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  5. olha vc linda de mais os homem querem de tudo fica com vc eu sem duvida eu quero te segui como mestre mandar

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  6. eu entro so para ve vc linda da minha vida

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