segunda-feira, 17 de novembro de 2014

FILHO (Recado a meu filho Haile)

Filho Faz muito tempo que não nos vemos E, com certeza nós dois sentimos a falta um do outro Tenho carência dessa nossa amizade E inveja daquelas e daqueles que posam contigo Nas redes sociais Filho Não sei se você sente minha falta Creio que sim. Embora acredite que entre 20 e 30 tudo é festa E sua vida deve ser de paz Filho Eu vou bem Como o cérebro ordena O coração permite E as pernas me levam. Filho Todos os erros tão comuns em nossas vidas São cenas vãs repetidas Meu herói e meu bandido Podem estar na mesma fita. Filho As orações muito bem nos faria Na cadeira mais fofa ou no banco da praça Com o xis de frango ou o naco de lasanha. Filho Me perdoa essa insistência Tenho dúvidas Não sei se a indiferença é uma fortaleza Ou uma ciência exata. Filho O nosocômio é testemunha Do alarde de sua chegada Assim como a geração 2000 Compartilhou suas primeiras orações E do alto fui parceiro do sofrimento Das tranças do Djavan Filho Não sou herói e nem dou tiros na sessão da tarde Sou apenas um ser que erra e acerta Ou seria o contrário? No meu peito o coração ainda bate E a vida Curta como é nos oferece revanche Vamos brindar? Geraldo Potiguar do Nascimento SP-17.11.14

quinta-feira, 22 de março de 2012

Convescote a Gaúcha ou Convescote na Rua da Praia

Porto Alegre é uma cidade linda. Cidade lambida do oeste ao sul pela baía do Guaíba. Salve o por do sol desse lago, uma das grandes belezas do mundo. Um por do sol retratado em fotos, versos, poesias, crônicas e outras. A cidade cresceu. Cresceu e se desenvolveu. O mais importante de tudo isso é que apesar de ter aberto as asas para o progresso a cidade não perdeu aquele ar provinciano. Muitos vêm do interior, de outros estados e de outros países com muita vontade de crescer. Com ela vêm os sonhos, os desejos de sucesso, mas não abrem mão dos valores, dos costumes familiares e hábitos da infância.

A rua da praia é um celeiro de vozes. De inspiração. De desejos. Todos têm direitos a essa famosa rua: o comercio, principalmente após a General Câmara (antiga Rua da Ladeira), acompanhando a antiga Rua da Graça incorporada que foi a Rua dos Andradas, rumo ao bairro de Moinhos de Vento. Há a Praça da Alfândega com tudo que há de diversidade. É nessa praça que meninos e meninas se encontram e principalmente adultos para a partir daí traçarem seus planos de sobrevivência. Uns rompem a madrugada em busca de um ou trabalhando no do dia seguinte.

Seguindo em direção ao rio ou a baía do Guaíba, do fim para o início da rua, chegamos a região militar. Em homenagem aos militares está ali, bem próximo, a Praça Brigadeiro Sampaio com suas quadras poliesportivas, brinquedos para crianças como: balanços, escorregadores, e outros; telefones públicos, cestas de lixo para os conscientes não sujarem as vias publicas, mini mercado (do outro lado da rua), espaços longos e amplos sob os pés de araucária e eucalipto onde muitos moradores das redondezas passeiam com suas crianças e/ou com seus cães.

Foi nessa praça que conheci seu Manoel. Diz ele ser um legítimo representante dos primeiros moradores da cidade. Manoel Gracia Lopes como faz questão de se apresentar. Com a mesma pomposidade nos apresenta dona Domi. Assim para os íntimos, ele diz. O nome de sua esposa é: Domitilla Figueiredo Lopes, segundo ele, descendente direta do brigadeiro José Marcelino de Figueiredo fundador da cidade de Porto de São Francisco dos Casais, hoje Porto Alegre.

Este senhor é um homem tranqüilo. Nasceu e sempre morou na Rua da Praia. Aos domingos e feriados reúne a família que é possível reunir para um belo convescote. A diferença fundamental é que sempre fazem parte desse encontro: um bom churrasco de costela de boi gordo, chimarrão e vinho.
Quando está frio ou quando dá na telha está lá ele e sua inseparável esposa completamente pilchados: ele sem esquecer nem o chapéu de barbicacho e ela a sua flor vermelha no cabelo. Apressado ou no verão, o bermudão, o tênis e o avental de churrasqueiro é sua indumentária. Roupinha coloquial é a da esposa.

Trovador como ele só. Adora uma boa trova desde que tenha platéia. Grande ou pequena, não importa. Esse homem adora falar principalmente sobre as vitórias dos gaúchos: a batalha do chaco; a entrada dos açorianos nessas terras do sul que relata como se tivesse também participado; a revolução farroupilha e o levante federalista onde, pela sua índole, teria lutado. Chimango ou maragato, não importa. Estaria lá pela honra e glória do seu Rio Grande.

A violência acha coisa da modernidade que ainda não lhe fez mudar de hábitos. Preocupa-se mais com a caçula. Homem de vida dura, militar da reserva, familiarizado com a vida na caserna, domador de cavalo xucro quando prestava serviço na cavalaria não consegue domar a Fatinha. Maria de Fátima Figueiredo Lopes tem 18 anos. Muito bonita. Segundo ele, linda como a avó. Queria que fosse professora como a mãe dele, mas teve que aceitar a mudança da guria do curso de ensinamentos pedagógicos para o de artes cênicas. Essa coisa de teatro e cinema. Teimosia da juventude.
Reclama das tatuagens que a sua eterna piazinha cisma de fazer em lugares que na sua esposa considera sagrados e principalmente da novidade: o brinco prateado que atravessou na língua.

Na festa de 18 anos Fatinha apresentou o João Fernandes que seu pai só gostou do nome. O rapaz também é descendente legítimo dos primeiros açorianos e seria grande e vistoso. Um belo gajo se se vestisse bem à moda de Portugal ou classicamente do Brasil coisa assim considerada normal. No entanto o candidato a genro se veste com calças rasgadas, desfiadas, às vezes manchadas de tinta, parecendo trapos. Têm no corpo várias tatuagens e vários brincos. Se diz cantor. Com a namorada e amigos tem uma banda. Todos com o perfil parecido. Um belo dia, a convite dos dois, saiu do seu apartamento, arrastando a esposa, para assistir a um show do grupo deles. Os dois não entenderam nada das letras das músicas e quase se afogaram na fumaça que, pelo que imaginam, fazia parte do show. O que consideram a parte boa da noite é que curaram as dores nas cabeças entre vaneras, vanerões e chulas num bailão ali perto.

Seu Manoel tenta entender os jovens. Lembra do seu tempo e... apesar de tudo espera o casório para breve. Uma grande festa será realizada, pois foi assim que seu pai lhe ensinou que se faz casamento de filha. Dessa parte não abre mão. Sonha com netos. Muitos netos para aumentar a alegria nos convescotes da Praça Brigadeiro Sampaio. Se os brincos deixarem.

Geraldo Potiguar do Nascimento
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segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Silêncio

A Elônia

O Silêncio é algo dúbio
para uns
pode ser o fim
outros pensam na reflexão.
Não quero falar nesse assunto:
diriam alguns
quero mas não consegui
coragem o suficiente
Silêncio pode até não ser
mas gera sofrimento
embora muitos digam que é paz.
Há os que preferem uma
vida de paz
de silêncio
outros preferem o agito
dos acontecimentos
mesmo que não sejam
muito silenciosos
Silêncio é espera
é solidão
é dúvida
momentos de ânsia
sonhos do futuro.
Ah o silêncio!
Esse gigante que nos penetra
e vai aos poucos
nos consumindo.
É preferível o contraponto
a antítese
a discórdia.
No silêncio não se ouve
o murmúrio das águas
o mais doce acalanto
dos enamorados.
Silêncio é fúnebre
sepulcral
estressante
tristeza de perda
fim dos sonhos
triste fim para os ávidos de desejo.
Ah o silêncio!
Silêncio é o fim!


Geraldo Potiguar do Nascimento
Porto Alegre, 26.06.05.

Tri, poli, multi

“...Ter uma só cara é estar nu
em casa/ ou no jardim...”
Tomé Varela da Silva


Fujo da monotonia
assistindo as caras
o manual africano
me deu as letras
de suportar o mundo
o verdadeiro néctar
vem da fonte..
O mundo que dizem poli
é copia mal feita
desse manual
multidimensional.
A água do mar trás recados
de Yemanjá
Oxum
a deusa do ouro
e da fecundação
é a mestra.
A música é de qualidade
as épulas e as alcovas
são sublimes
sim
sou multi
multidimensional
fugindo da monotonia.


Geraldo Potiguar do Nascimento
São Paulo, 18.05

Filho de Goiamum

“...Nada te devo
Portugal colonial...”
David Mestre

A meu pai
nada devo
esse caucasiano
que ajudou
a conceber-me.
Quando nasci
descobri casa
e causa negra
que suguei
nos seios
da negra mãe.
Sonhei afagos
beijos, talvez
nunca acontecidos
desse homem
que ajudou
a conceber-me.
A paz
a causa e a casa negra
as iyás que me guiaram
me tornaram crente
cético com a vida
delas ganhei
a pretensão do eterno
e dos outros o título:
filho de goiamum.


Geraldo Potiguar do Nascimento
São Paulo, 16.05.08.

Preta de Pixe

“...e ao toque dos lábios do príncipe, os olhos dela se abriram...”
do livro: Branca de Neve e os Sete Anões.


Foi lá que nossos olhares se tocaram
sete de julho nas escadarias
outras fadas ou bruxas me rodearam
conheci geografias e anatomias
terras firmes, belas e férteis.
O teatro sempre foi a vida
o sono foi pulado
a escola foi a ocupação
o trabalho a mantinha viva.
No segundo tempo demos as mãos
a maçã era de chocolate
e com novo formato.
Conhecemos nossos corpos
cafunés malandros entre as carapinhas
supriram nossas carências.
Alegria, batuque, parati e balangandãs
supriram nossa festa de união
o mungunzá nos nutriu
no chamego me fiz às.
Vivemos felizes
O barco flutuando
Os filhos crescem
Enquanto escrevo
O “para sempre” dela
É no serviço público
Até a aposentadoria.


Geraldo Potiguar do Nascimento
São Paulo, 14.05.08.

Negrinhos em Evolução

A Addae, Damali, Haile e Makini


Os filhos são para a alegria
são para o mundo
antes os sonhos
no real eles crescem
em primeiro plano nos emocionam
as lágrimas lavam o rosto
o coração dispara.
Em segundo plano
buscam a ciência
é lá que desafiamos
os carentes e saudosos
de Gobineau.
As festas estão na moda
o gen construiu cabeças
as transformações serão históricas
os negros novos percebem e curam
as cicatrizes que povoam
os corpos e as mentes.
Que vivam os negrinhos
e as negrinhas
nossos eternos erês.

Geraldo Potiguar do Nascimento
São Paulo, 12.05.08.