terça-feira, 23 de junho de 2009

Encontrão na Rua da Praia

Eu e a Fabiana nos conhecemos através de um encontrão. Eu sei que é uma forma bastante esquisita de duas pessôas se conhecerem, mas foi. Um encontrão na Rua da Praia. Rua da praia, na realidade, é uma rua que não existe. É a rua mais famosa dos gaúchos, mas é uma rua que não existe. A Rua da Praia não existe desde o século dezenove. Apesar de sua "inexistência", todo gaúcho sabe onde é a Rua da Praia. E não são só os gaúchos: por causa da "esquina democrática", que é a esquina da Rua dos Andradas com a Borges de Medeiros, essa rua é conhecida em todos os cantos do nosso país e até no exterior. Mesmo quem nunca veio aqui no Rio Grande do Sul já ouviu falar da "rua da praia".

Eu e a Fabiana tivemos ou cometemos um encontrão na Rua dos Andradas, nome oficial da rua da praia e em questão de minutos lá estávamos lado a lado em banquinhos, numa daquelas lancherias dalí da rua, dividindo um refrigerante, apesar do frio do inverno, em bora os raios do sol insistissem em se manter clareando o dia. Ou melhor: a tarde. A nossa tarde.

Minha mais nova amiga faz "História" na ULBRA (Universidade Luterana Brasileira ), de Canoas, na região metropolitana de Porto Alegre, é uma empresária de uma pequena empresa na àrea de comunicação e garante que por dever de ofício vai a Universidade de Passo Fundo participar da Décima Jornada Nacional de Literatura.

A nossa conversa gira por vários assuntos: rua da praia, como não podia faltar; democracia; Rio Grande do Sul; Brasil e o Nordeste, dentre outros, já que sou um nordestino "perdido" aqui nessas terras dos pampas. Falamos de outros assuntos e em seguida descambamos para temas interligados como: amor, sedução, traição e solidão. Observações não faltaram em nossa cavaquiação. Falamos da mídia , contamos piadas, lembramos como as piadas contadas, que também fazem parte da mídia , minimizam a importância da mulher no processo histórico de transformação da sociedade.

Lembramos as páginas e mais páginas que existem na internet fazendo "gracinhas" com as mulheres e... na continuação colocamos em evidência as "galhofas" que existem "contra" os homens transformando a nossa mídia numa verdadeira "guerra dos sexos". Pérolas como: "os homens são iguais a pão de forma ou pão de sanduiche, como queiram: são quadrados, fáceis de dobrar e se desmancham com facilidade". Ou aquela que diz que: "os homens são iguais caracois: pegajosos, gosmentos e acreditam que a casa é deles".

Apesar de estar conversando com uma futura historiadora, não falamos muito sobre a morte do diplomata Sérgio Vieira de Melo, assassinado no Iraque onde representava a ONU (Organização das Nações Unidas) e tentava normalizar a vida do povo no pós-guerra e as conseqüências desse acontecimento para a paz mundial. Não falamos sobre o interminável conflito árabes/judeus. Não comentamos sobre estes primeiros meses do Governo Lula, nem falamos da tentativa do ator Arnold Schwarzenegger em governar o estado da Califórnia.

Lembramos de Obirici, a lenda histórica da ìndia rejeitada que teve suas lágrimas transformadas em rios que terminam formando a baía do Guaíba que banha a cidade de Porto Alegre. Dessa lenda pulamos para um acontecimento real ocorrido na zona sul da capital dos gaúchos, ao lado do arroio Passo Fundo: "Gislene,negra linda, passista dos "Bambas", namorava Dino, componente da bateria da mesma agremiação. Ao saber que o seu amado 'dividia' os seus prazeres com outra 'pretendente' tomou uma decisão: poria fim a tudo. Chico Dé, escoador de confiança da droga da região foi quem bancou o empréstimo do trabuco".

Na hora indicada, porta do colégio, lá estava Dino e Claudia, conhecida "de vista" de Gislene trocando òsculos e amplexos". "Dois estampidos chamaram a atenção dos transeuntes que não observavam, até aquele momento, a balbúrdia, tão comum na saída dos discentes. "Dois tiros. Dois mortos: Dino de vinte e um anos e Claudia de dezesseis".

O desespero estava estampado nos olhos de Gislene. Seu amor havia morrido; e pelas mãos dela. Seria ainda julgada por outro crime premeditado e executado. Não resistiu a pressão interna. Seus neurónios não a deixaram em paz. Várias opçoes foram sugeridas por parentes e amigos: mudança de endereço, indo viver com uma tia numa pequena cidade do interior; entrar no Movimento dos Sem Terra; trabalhar como palhaça, trapezista ou qualquer outra modalidade num circo mambembe e outros. Seu pai, separado de sua mãe, entrou na história. Sugeriu uma saída honrosa se é que para uma situação como esta a opção é válida. A ideia do velho seria procurar um bom advogado e se entregar na primeira hora. Ré primária, com um bom comportamento, atenuantes, etc, cumpriria no máximo um terço da pena o que poderia, com sursis, ficar em liberdade cumprindo apenas formalidades de apoio comunitário.

Gislene resistiu. Resistiu a todas as opções e pressões. Mas como dizem os mais velhos: "do destino não se foge". Quem saiu naquele fatídico dia de agosto encontrou o corpo de uma bela jovem, gestante, de dezoito anos dentro do Arroio Passo Fundo. Seu sangue verteu à vontade e seguiu o rumo do arroio transformando as, normalmente claras, águas da baía do Guaíba.

Fabiana pensa. Franze a testa. Arruma os cabelos de cachinhos castanhos e pintura descolorando descobrindo o preto do natural. Comenta a lenda de Obirici (a ìndia). Pensa mais um pouco e por fim, volta ao diálogo. Fala das fatalidades dos dias de hoje e da desvalorização da vida. Comenta a "rigidez" no pensar dos adolescentes. O conservadorismo na "educação dirigida aos homens" e muitos outros assuntos que passam na maioria das vezes longe do "saber acadêmico".

O Encontrão na Rua da Praia... ou será Rua dos Andradas? Ou as duas cognominações valem ? Os assuntos variados, as piadas, a lenda de Obirici e a cruel realidade principalmente das periferias das grandes cidades deixaram a minha mais nova amiga meio atordoada. Adolescente, vinte e dois anos, acadêmica, segue Fabiana sem entender, o quanto gostaria, o nosso mundo. No seu ìntimo, desejava que fosse diferente. Que o amor fosse a chave de tudo, afinal, o amor é lindo. E fácil. É muito fácil amar. Assim como um encontrão na rua da praia.

Copyright © 2003 by Geraldo Potiguar do Nascimento - Todos os direitos reservados.

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